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Vamos assumir que tomaram a decisão correcta ao decidir acender uma fogueira, seja qual for o motivo, e não nos vamos debruçar sobre esse tema, que ficará para outro artigo.

Mas como escolher o local ideal para uma fogueira?

Sempre que possível, o ideal é usar um local já designado para fogo. Muitas vezes são estruturas já pensadas em questões de segurança, localização, recursos disponíveis e comodidade. Muitos campos e parques têm uma zona de fogo delimitada por pedras, cuja função é de marcar claramente a zona de fogo e de impedir o alastrar da cinza, outras têm estruturas elevadas que permitem não queimar o solo e garantem um bom fluxo de ar ao fogo.

Mas muitas vezes no mato não há esse luxo.

Se vamos apenas fazer um fogo para cozinhar uma refeição, o local não precisa de ter mais que um palmo de largo. Devemos escolher um local abrigado de ventos fortes, idealmente em espaço aberto, livre de árvores, arbustos e vegetação aérea.
Uma plataforma de madeira verde no solo vai evitar que este “coza”, pois a duração do fogo não chegará para produzir calor suficiente. É também um bom método para, quando se faz um fogo na neve, evitar que este a vá derretendo e se enterre pela neve adentro. Uma plataforma de rochas também pode ser um recurso, mas é de ter muito cuidado com rochas com grande exposição a água, pois com o calor, alguma humidade no seu interior irá dilatar e a rocha pode literalmente explodir.
Em zonas de erva ou folhas secas, ainda assim, convém limpar o terreno pelo menos um metro em redor da zona de fogo, afastando a matéria morta até se ver o solo nu, mas de modo a que esta possa ser reposta uma vez findo o fogo.
Por fim não esquecer que do fogo não devem ficar nenhuns vestígios, e o local deverá ficar tal e qual o encontraram.

Os fogos de noite são mais complicados. Quer pela sua dimensão, tanto física como temporal, quer pela sua função, requerem sempre mais atenção à escolha do local.

Comecem por encontrar um local naturalmente abrigado do vento, onde irão ser minimizadas as fagulhas e onde se irá tirar mais partido do calor do fogo. De novo, escolher um local afastado de árvores, arbustos e vegetação aérea, mas com uma fogueira grande é preciso algum cuidado também com a vegetação subterrânea, nomeadamente raízes que se encontrem perto da superfície e que possam queimar sem nos darmos conta, agindo como rastilho lento e só deflagrando por vezes dias depois, quando finalmente tocam a superfície e entram em contacto com o ar.
Os fogos em zonas rochosas requerem sempre alguns cuidados, por causa do efeito explosivo de que já antes falámos.
Também é de evitar os fogos junto a paredes verticais, que apesar de proporcionarem boa refracção do calor vão ficar queimadas, e não deixam de ser solo vivo.
O local deverá ainda ter abundância de lenha disponível, para evitar que abandonemos o fogo para ir buscar mais, e muito bom será um local com água próxima que possa ser usada para extinguir o fogo.

Numa fogueira ocasional não é essencial o circulo de pedras, podendo ser a cinza contida com lenha mais grossa que se vai empurrando para o centro, mas se o fizerem não se esqueçam de o desmanchar no final do seu uso.

A última alternativa é o poço de fogo. Trata-se de um buraco aberto no solo com pelo menos um palmo de profundidade, em que a terra e coberto são cuidadosamente retirados de modo a que depois possam ser repostos.
Tem vantagens quando à concentração de calor, contenção do fogo e subprodutos e não perturba a camada superior mais sensível do solo.
No entanto é mais trabalhoso e solta o solo onde é feito, tornando-o mais sensível à erosão.

Evitar de todo fogos em zonas de turfa, que é altamente inflamável, muito próximo de cursos de água, onde as pedras são húmidas e zonas muito expostas ao vento por causa do perigo de incêndio.

Vamo-nos vendo pelo mato.

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Fogo à chuva

Com bom tempo, qualquer palerma acende uma fogueira, já diz o ditado.
É nas piores alturas que se vê quem sabe realmente acender um fogo.
Felizmente o nosso quadradinho está bem provido de uma das árvores mais práticas para acender um foguinho quando está tudo encharcado: o pinheiro.

A primeira coisa a fazer é preparar o local onde vamos fazer o fogo. Como a primeira chama é algo frágil, convém que o local seja abrigado pelo menos durante a primeira fase, usando um poncho ou uma lona mesmo por cima do local do fogo. É importante que não nos caia chuva nas primeiras chamas.

Depois é preciso ir à lenha. Os ramos mortos dos pinheiros são excelente combustível. O primeiro indício de que o ramo está morto é a ausência de matéria verde nas pontas. O segundo e claro indício da sua morte é o característico “tak!” quando se parte. Os ramos vivos vão dobrar, ainda que ligeiramente, rejeitem esses.

Madeira morta em pé não significa necessariamente ainda agarrada ao tronco: desde que não estejam em contacto com o chão, servem perfeitamente.

Depois de recolhidos uns ramos valentes, e nesta coisa da chuva mais vale pecar por excesso, quando acharem que têm madeira suficiente, tripliquem a dose, só por segurança. É uma chatice quando está a chover a potes a primeira tentativa falhar por falta de alimento e termos que apanhar a segunda molha a ir recolher madeira de novo.

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Portanto temos os nossos ramos debaixo do abrigo. Uma sacudidela valente é mais do que suficiente para lhes retirar o excesso de água que os cubra. Como não estão em contacto com o chão, irão estar relativamente secos por dentro.

O processo de preparação é semelhante ao fogo de gravetos que pode ser encontrado aqui.
Uma base, para permitir uma boa entrada de ar e manter o fogo longe do chão molhado, a lenha separada por tamanhos de mina de lápis, lápis e polegares, em molhos que precisem das duas mãos para os agarrar. Se conseguirem, por uma questão prática, amarrem os freixes mais pequenos.

Uma ressalva aqui para o facto das raízes dos pinheiros crescerem perto da superfície e arderem tipo rastilho, reacendendo por vezes meses depois de termos feito o fogo. Havendo tempo, escavem um pouco para retirar alguma raiz que esteja por debaixo da zona de fogo e permitam que a chuva encharque bem o buraco antes de o tapar de novo.

Depois é a vez da acendalha, que deixamos para o fim para que apanhe o mínimo de humidade possível. Aqui é importante ter um bom molhe de feathersticks, com aparas bem finas e longas. Com alguma prática é possível fazer feathersticks que acendam com uma faísca, mas para já contentemo-nos com uma quantidade do tamanho de uma meloa. Depois de preparada a acendalha é altura de raspar um pouco de pinho resinoso, o mais vermelhinho que encontrarem e que cheire o pior a terbentina que conseguirem. Raspem-no até conseguirem um pó fino na quantidade de uma uva gorda, que mais uma vez é preferível pecar por excesso. Se conseguirem encontrar resina, ainda melhor, que o efeito é o mesmo e dura mais tempo. Tem é que ser bem pulverizado para pegar.

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Este pó irá acender com facilidade com algumas faíscas de um firesteel, e esta será a nossa primeira chama. Sobre esta chama vamos colocando muito gentilmente os feathersticks, deixando que a chama lamba a ponta das penas sem as depositar à bruta em cima da chama, abafando-a. Esta é a parte mais crítica do fogo. Assim que as penas ganham chama, é altura de passar aos gravetos.

Por esta altura, o calor da chama dos feathersticks será suficiente para secar o resto de humidade que ainda esteja agarrado ao vosso primeiro molhe tamanho mina de lápis. De novo, pega-se o molhe por cima da chama, apenas de modo a que esta venha lamber os primeiros gravetos, e assim se mantém até que a chama surja por cima do molhe. Podemos então poisar este molhe gentilmente em cima do fogo e repetir o processo com o segundo molhe. Nesta fase a fogueira já deve produzir um calor considerável.
Se por acaso virem a chama esmorecer, sinal claro de pouca oxigenação, pequem na base do primeiro freixe, que ainda deve estar amarrada, e levantem toda a lenha um pouco, permitindo uma entrada de ar por baixo mais eficiente, o que irá fazer disparar as labaredas.

Assim que se poisa o segundo molhe, é altura de começar a alimentar, do lado contrário ao do vento, a fogueira com os gravetos tamanho lápis, mais uma vez pousando gentilmente os ramos. Qualquer atirar de madeira para o fogo até este estar sustentável pode mandar abaixo o trabalho todo.

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Uma vez empilhados os gravetos médios, podemos passar então a madeira do tamanho polegar.
Assim que estes estiverem a arder, temos então um fogo sustentável, cujo calor que emite, tanto da chama como da cama de brasas que entretanto se foi formando, é suficiente para fazer evaporar a água da chuva antes que ela lhe caia em cima. A quantidade de madeira necessária para isto é directamente dependente da enxurrada, mas o processo é sempre o mesmo.

Depois disto, quaisquer troncos grossos, mesmo encharcados, podem ser encostados à fogueira para irem secando, e vão naturalmente entrar em combustão quando estiverem secos.

Assim que o fogo está sustentável, aconselha-se que movam a protecção para o lado da fogueira, para que o calor das chamas não a derreta. Um abrigo inclinado irá proteger do vento e reflectir algum calor para as costas, tornando uma estada à chuva bastante aceitável.

A grande vantagem de acampar à chuva é mesmo o facto de não ser preciso ir muito longe para buscar água boa para beber, e de raramente alguém nos vir chatear .
É então hora de juntar umas agulhas de pinheiro e fazer um cházinho carregado de vitamina C, para prevenir alguma constipação enquanto a roupa molhada seca em frente ao fogo.

Boa caça, e vêmo-nos no mato.

Inesperadamente, um mail chegou à minha caixa de correio. Parabéns, foste escolhido para participar no Fjallraven Polar.
Após aqueles momentos de incredulidade, lá caí em mim que a fantástica marca de roupa de outdoor Fjallraven me ia levar e equipar para uma aventura 200km acima do circulo polar ártico.

Cheguei a estocolmo no domingo de páscoa já tarde, e o primeiro contacto foi um alce enorme que atravessou a estrada descontraidamente à frente do taxi. Parece que  por lá estão habituados, porque o taxista abrandou ainda antes de o vermos. O hotel era o Mornington, na periferia, e tendo em conta que a segunda a seguir à páscoa também é feriado, estava tudo fechado. Um hotel dedicado a desportistas, em que além de ginásio podiam alugar montes de equipamento, de bicicletas a skis, skates e patins.
O ambiente à volta do hotel é fantástico e nem parece que estamos a um passo de uma grande metrópole, com frondosos bosques de bétula e pinheiro nordico, casas no rio e montes de embarcações prestes a iniciar a época dos lagos.
Até à hora do almoço foram chegando os outros concorrentes, e quando estavamos todos foram-nos apresentadas as pessoas que nos iam acompanhar na viagem, nomeadamente o Jerry Engstrom, director de marketing que apresenta os videos que vamos ver à frente, e o Johan Skullman, que treinou o Ray Mears em sobrevivência no ártico e que escreveu dois dos manuais de winter warfare em uso actualmente no exército sueco, portanto um personagem com uma bagagem de meter respeito.
Almoçamos todos juntos e depois fomos ter uma sessão de formação sobre sobrevivência em ambientes extremos e equipamento.

Depois de um curto intervalo fomos então levados para uma sala contígua onde nos esperavam os sacos com a roupa que iriamos passar a vestir, tudo da cueca de merino à rede interior de la, os jumpsuits, as peúgas, as botas, as 3 luvas diferentes, o polar, o ecoshell e a parka, assim como gorros vários, trapper hats, abafos de pescoço e orelhas, óculos de sol e de ski.
um saco inteiro de equipamento mais uns cabides para completar o ramalhete. Todo o material era da melhor qualidade, mesmo o que não era da Fjallraven, das botas Hanwag às luvas Hestra, a roupa interior da Aklima.
Depois de todos terem experimentado a roupa a ver se os tamanhos estavam bons, voltamos à sala de formação para aprender a combinar aquilo tudo até à hora do jantar.
A noite foi na converseta, a conhecer os novos companheiros de aventura. E depois foi cama de novo, que a alvorada seria no dia seguinte ás 6, onde iamos voar para a Noruega, de Arlanda para Kiruna e daí para Tromso.

dia 2
Terça-feira, 6 e meia da manhã e já tudo com o pequeno-almoço tomado e devidamente equipados com a ecoshell laranja (para transmitir um pouco de espírito de grupo), um autocarro esperava-nos para nos levar ao aeroporto de Arlanda, em Estocolmo.

Voamos para Kiruna, no norte da suécia, perto de onde será a linha de fim do percurso, e daí um outro vôo para o aeroporto de Tromso, no norte da Noruega.  Daí apanhamos um autocarro para uma viagem rápida até um hotel em Signaldalen, onde iriamos receber formação em equipamento e trenós. A vista começava a ser magnífica.

Chegados ao hotel já neva copiosamente e já nos esperam alguns trenós e os guias, que nos dão uma primeira mostra de como se usa a coisa, como se trava, como se curva e que – a informação mais importante desta formação –  aconteça o que acontecer não se larga o trenó, porque os cães nunca mais param. Mesmo que o trenó caia no gelo, mesmo que escorregue por uma falésia abaixo, não se larga, que os cães têm força suficiente para o puxar de volta para o caminho.

Depois de devidamente equipados com roupa para o frio que se faz sentir, que o vento e a neve provocam um efeito de arrefecimento tremendo, tiramos a primeira foto de grupo oficial.

Recebemos então instrução em como montar as novas tendas de montanha (coisinha mais robusta e fácil de montar, mesmo de luvas) e em como usar o fogão primus, as duas principais peças de equipamento que vamos utilizar no percurso. O director de marketing Jerry filma o processo.

Começa a anoitecer, é-nos entregue o resto do equipamento individual e de equipa (polainas de lã, saco-cama, kit de cozinha, colchonete, tenda, comida, machado, mora, bussola, cantil e termos, etc e tal). Toda a gente tem que (re)aprender a fazer o primming do fogão e a por aquilo a trabalhar, pois irá ser essencial ao longo de todo o percurso. As estacas novas de neve vinham com o cordel do lado errado e foi preciso desatar, mudar de lado e reatar, assim como verificar todo o equipamento antes de ir dormir, já tarde.
Sentia-se algum nervosismo no ar, mas o adiantado da hora e o cansaço não colaboraram para mais confraternização.

dia 1 da corrida.
Acordamos todos com algum nervosismo.
a minha tripa transmite-me alguma preocupação em solidariedade com o resto dos camaradas, e uma dor de cabeça começa a tomar forma, assim como uma ligeira indisposição. Tomo um pequeno almoço ligeiro, o mínimo para eliminar o factor fome, hidrato-me bem mas não bebo café, não me vá cair mal.
Todos saltam para o autocarro, e após uma curta viagem começamos a ver um pequeno bosque com centenas de cães presos ás árvores. O ruido é de doidos.

Mesmo em frente a nós a montanha, majestosa e algo assustadora. Dizem-nos que o primeiro dia será o mais duro, sempre a subir pela floresta e com o tempo a piorar. obrigadinho pelo alento, sim?
Somos apresentados aos respectivos cães e recebemos dos mushers um papelinho com o nome deles, mas só decoro o dos guias, a Foxy e o Falco, porque é com eles que é preciso comunicar. O resto só puxa.
Rápidamente começamos a  por todo o equipamento nos trenós, prender bem as coisas, ter o termo com agua quente à mão (existe um saco nas costas do trenó só para isso), um último aviso dos mushers quanto a cuidados a ter no caminho e toda a gente salta para cima do seu trenó, pisando bem os travões e libertando a âncora, mas mesmo assim o trenó ainda fica amarrado a uma árvore até nos ser dada a partida individual, que os bichos já estão histéricos. Nunca vi tanta vontade de correr.
Cada grupo de 4 pessoas, 2 de cada país, segue atrás do seu musher, que vai na frente para o caso de alguém cair do trenó ele poder parar os cães. Tomo um comprimido para a dor de cabeça que não me larga e amaldiçoo o café que não tomei.
Ao sinal de partida, soltamos a corda e levamos o primeiro de muitos esticões nos braços. Daqui para a frente não há retorno.

A subida é agreste e o caminho é estreito. A neve acabada de cair é fofa e faz tombar os trenós regularmente. Agarramo-nos bem, que os cães estão frescos e tratam de voltar a puxar o trenó ao lugar, não sem que hajam umas quedas épicas. O vento aumenta e começa a ficar mais fresquinho da neve que bate incessantemente de lado na cara, impedindo-nos de ouvir o que quer que seja.
Grande parte da manhã é a olhar para o traseiro de cães, a tentar adivinhar para onde vão virar a seguir, a desviar a cabeça dos ramos e o trenó dos troncos. De vez em quando é preciso sair para o lado e dar um empurrão para ajudar a subir, apenas para depois ser levado de rojo uns metros quando eles voltam a arrancar. Nas descidas é pior, pois o trenó ganha velocidade e é preciso travar constantemente para não ir cair em cima dos cães. Sempre tensão na corda, ou eles viram à esquerda e o trenó segue em frente ou pior, o trenó vira bruscamente e apenas tu vais em frente. De qualquer modo, mesmo que vás com a cara ao chão, continuas a andar em frente.

Não demora muito até as árvores começarem a escassear, sendo substituídas por um branco magnífico.
A um sinal dos mushers imobilizamos os carros. Já há gente parada lá à frente, deve ser hora de almoço. Como o sol nunca vai nem muito alto nem muito baixo, é o horror tentar adivinhar que horas são, o relógio biológico está todo trocado. No topo de uma pequena colina estão umas motas de neve paradas, já com alguns participantes reunidos à sua volta.
As trenós são deitados de lado para aumentar a tracção e os cães aproveitam para uma pequena sesta. Alguns de nós experimentam pela primeira vez na vida caminhar na neve quando esta nos chega à cintura, mas o cheiro a comida quente no topo da colina é um bom incentivo. Aprendemos depressa a pisar apenas nos buracos que alguém já fez com as raquetes de neve. Uma sopa quente tipo cozido do que penso ser rena, uma sanduiche e uma bebida quente. E depois o magnífico café. Sinto-me pronto para outra etapa!

O almoço passa rápido, sem grande tempo para confraternizar, que ainda há muito caminho a fazer.
Toda a gente volta aos seus carros, volta a equipar-se e a ajustar algum equipamento que se justifique, nomeadamente a Parka polar azul, que o frio a isso obriga, e estamos prontos para seguir viagem.
Em breve estamos no topo do mundo.

O tempo vai alternando entre abertas que nos permitem apreciar a paisagem magnífica e fortes nevões que nos deixam em whiteout, mal dá para ver os cães da frente e os postes com as marcas laranjas cruzadas que indicam o caminho e funcionam como estradas na neve. Por esta altura já percebemos que os cães sabem o caminho. O percurso continua por um tempo que se extende e parece que nunca mais acaba. Os grupos ganham distância entre si e o ritmo do arfar dos cães torna-se o único companheiro.

É uma vastidão branca e desoladora, horas a fio, neve a perder de vista em vales enormes, que ao passar a colina são substituidos por outros vales enormes.
De vez em quando paramos para um xixi e para ver se os cães não têm patas feridas, a precisar de uma pantufa, rehidratar e 5 minutos depois estamos de novo a caminho.
Já começa a escurecer quando avistamos as bandeiras a dizer “checkpoint”. Espero sinceramente que seja o local de pernoita, pois está tudo enregelado, cansado e cheio de fome.
Assim que chegamos o musher dá-nos indicações quanto à rotina de chegada, e são muito claras: primeiro tratar dos cães.

Os cães. Afinal eles é que fizeram o caminho todo a puxar, e merecem cuidados mesmo que estejamos todos de rastos e cheios de fome. Além disso se não comem depressa, adormecem, e se não jantam no dia seguinte não puxam. Portanto há que agir rápido.
É esticado um cabo de aço no chão, ou preso a uns postes que lá estão ou presos a uma tábua que é preciso enterrar bem na neve. Os cães são levados por ordem, um a um, o guia no fim, para a linha, onde são postos exactamente pela mesma ordem do trenó, bem afastados uns dos outros para não se engalfinharem.
A equipa divide-se: enquanto um fica a cortar umas enormes salsichas com um machado (uma por cão), o outro vai buscar água a um depósito onde esta não congela. Mais um fantástico passeio com neve pelos joelhos sem equilíbrio nenhum e com dois enormes potes de água, que se entornas tens que fazer o caminho todo de novo. O truque é ir devagar, passo a passo.
Depois de tudo cortado e da água fervida, mistura-se tudo num daqueles termos de praia, para que a carne descongele, e à qual é adicionada uma malga de ração seca. O tempo que as salsichas demoram a descongelar é o tempo de ir buscar mais água e de cortar nova dose, assim fica já o pequeno-almoço feito. Depois é alimentar os cães, dois a dois para que o mais forte não fique com tudo, lavar os pratos com neve, recolher tudo, por os casacos de neve nos cães e dizer-lhes boa noite.
De volta à cozinha, é tempo de voltar a encher um termos de praia para o dia seguinte, pois eles assim que acordam querem comer e correr.
Por esta altura já começo a olhar para a ração dos cães com um ar guloso.

Assim que o assunto canídeo fica terminado, é tempo então de tratar de nós. Montar tendas, arrumar todo o equipamento do trenó para o avançado da tenda, acender os fogões e ferver neve para o jantar, que já ninguém tem forças para uma terceira ida ao buraco da água. Mas a neve parece que leva décadas a descongelar. Já é completamente de noite, naquele azul característico da neve, quando acabamos de montar campo, prestes a desfalecer de fome.

Depois do jantar foi mesmo ir para a cama. Os cães ainda uivaram uma boa parte da noite, parece que é um ritual qualquer antes de irem dormir.
Lá fora, a neve continuou a cair a noite toda, mas eu dormi quentinho e que nem uma pedra.

dia 2 da corrida.
Começa a ficar duro.
O dia abre ás 6 da matina, que os cães já fazem uma barulheira enorme a pedir comida.
Felizmente ficou pronta de véspera e é só servir, enquanto o outro membro da equipa derrete neve para o pequeno-almoço.

Material arrumado de novo no trenó, tenda desmontada, um check-up rápido no vestuário para o frio que se avizinha e em menos de nada estamos de volta ao grande branco.

Ao longo de todo o caminho somos acompanhados por motos de neve que puxam os trenós onde vêm os repórteres fotográficos, confortavelmente deitados em peles de rena, o que não deixa de causar alguma inveja. De quando em vez fazemos uma paragem rápida para um xixi, hidratar e dar dois dedos de conversa com os mushers (que se distinguem pelos gorros garridos e pelas facas sempre à cintura, assim como os corta-vento castanhos). Contam-nos das corridas de cães, que as há de velocidade em cerca de 100km e as de endurance de 1600km, em que dormem 4 horas por noite e fazem tudo no trenó em movimento, da comida ás necessidades.
À hora de almoço, no meio do nada, há um sinal para parar a coluna, toda a gente aproveita aproveita para avançar neve adentro três metros ou menos, aquilo que a profundidade da neve deixa, para fazer as necessidades. o almoço é feito logo ali sentado no trenó com o fogão em cima da neve.
Enquanto uns fazem converseta à volta do café, não são apenas os cães que aproveitam para uma sesta rápida.

Pouco tempo depois estamos de volta ao caminho, que começa finalmente a descer, e onde se avista a treeline, um dos primeiros sinais de vida desde há muitos quilómetros. As arvores começam a multiplicar-se e surgem os primeiros sinais de civilização: um telhado de uma velha casa completamente enterrada na neve, uma ponte de madeira, o topo de uma outra ponte de metal.

Ao fim de algumas horas a descer entramos finalmente nos grandes lagos gelados, onde o caminho é muito mais estável e permite algumas filmagens e fotografias em segurança, assim como ir bebendo e petiscando em andamento, o que torna as paragens muito menos frequentes.
O tempo parece estender-se por uma eternidade, só nós e os cães, mal se ouvem os companheiros da frente gritar a chamar à atenção quando passa uma manada de renas ao nosso lado.
Após uma curva apertada num lago, que parece pequeno mas demora séculos a atravessar, vêmos finalmente as bandeiras do checkpoint da pernoita.

Acampamos na margem do lago. Não bem na margem, mas em cima do gelo junto à margem, pois uma escavadela para uma mesa hipopótamo rápidamente revela o gelo a cerca de um metro abaixo da neve. Consideramos mover a tenda mais para junto da margem mas estamos demasiado cansados e resolvemos confiar quando nos dizem que é perfeitamente seguro.
Fazemos a rotina dos cães e começamos a preparar a janta.
No centro do lago existe um buraco aberto para que possamos ir buscar água, mas é sempre caminhar com neve até aos joelhos.
Na foto abaixo, a pessoa que está mais ao longe provavelmente estaria a tirar agua. Era aquele caminho, ir e vir, pelo menos duas vezes.

Depois do jantar somos chamados para mais uma formação, desta vez sobre usar o equipamento para reforçar o isolamento térmico.
Johan explica-nos a rotina de deitar, o que vestir e como usar o que se despiu como reforço térmico ao saco-cama. Apesar da noite estar limpa, esperam-se 25º negativos.
Por esta altura já toda a gente veste a parka polar azul e os “bibs”, umas calças térmicas que se usam mesmo por cima das outras.

Estamos todos na converseta quando já noite cerrada alguém grita para olharmos para o céu.
A visão é indescritível. Magnífica. Aterradora até. O céu explode em verdes, laranjas, amarelos e vermelhos ao longo de uma linha, e nenhuma foto ou video que tivesse visto antes lhes faz justiça. É a aurora boreal.
É a pérola do norte. Ouvem-se pequenos estalidos no ar, como pipocas, mas muito suaves, e uma mão na neve sente-a a tremer, como se fosse puxada de volta para o céu.
Os aparelhos electrónicos ficam doidos por causa dos raios solares a atingir a ionosfera. Os cães uivam. O espetáculo dura cerca de uma hora e depois abranda. Alguns de nós simplesmente são incapazes de voltar para a tenda, e resolvem dormir ao relento na esperança de ver mais.
Toda a gente adormece com a sensação de ter presenciado algo único.

dia 3 da corrida.
solinho bom e uma surpresa.
Toda a gente acorda com uma estranha boa-disposição, parte pela noite anterior, parte pela rotina que se instala e que facilita a vida, parte pelo abrigo natural onde nos encontramos comparando com a noite anterior, libertando algum tempo para relaxar e esticar as costas.
Pequeno-almoço, tratar dos cães, arrumar.

Em menos de nada estamos de volta ao caminho, mas desta vez anda um zunzum no ar que nos espera uma surpresa para a parte da tarde.
A manhã é passada nisto. Lagos que parecem não ter fim, e de repente um pouco de adrenalina a corta-mato. Algumas manadas de renas cruzam-se connosco e nas margens já se vêm muitas cabanas de veraneio.

Os guias avisam que no final há uma queda abrupta onde no verão há uma queda de água, e que é logo a seguir a uma curva e contra-curva, por isso é endireitar o carro para a curva e travar a fundo para não acabar em cima dos cães.
Metade de nós vai ao tapete. um monte de jornalistas posiciona-se mesmo a jeito para capturar o momento, os malandros. Dou um toque de lado no trenó para o apontar à descida e salto a pés juntos sobre o travão, para mim correu bem.
Assim que passamos os repórteres, uma curva apertada mostra as bandeiras de checkpoint. É hora de almoço.

Ah, pois é, vamos dormir ao relento esta noite outra vez.
A malta da Fjallraven já tinha uma trincheira de neve preparada, que abriga do vento predominante, e cada equipa de 2 deve construir o seu. Há tempo ainda para uma formação sobre como fazer fogo na neve, usando o firesteel, casca de bétula e ramos de pinheiro.

O resto da tarde é dedicado ensinar o meu companheiro Grego a acender fogo com um firesteel e bétula e a construir o abrigo. Alguns optam apenas por uma parede de neve, outros cavam trincheiras, outros ainda cavam autênticos buracos na neve, que esta chega à cintura em alguns lugares. Como nos é permitido usar o abrigo de emergência azul, que não passa de um impermeável, optamos por 3 paredes de neve cobertas com o pano e com uns ramos de espruce a servir de chão à boa maneira inuit.
Um pinheiro morto ali ao lado leva apenas uns empurrões o tombar, e proporciona-nos a viga-mestra do abrigo e toda a lenha que vamos precisar para a noite.
Contamos por os sacos a tapar a entrada e passar uma noite excelente, pois mesmo durante o dia nota-se muito a diferença de temperatura no interior do abrigo.

À hora do jantar somos reunidos num fogo comum, onde uma série de pessoas nos veio visitar para entrevistas às respectivas cadeias televisivas e jornais.
Os locais trazem-nos bolinhos e café, e perco-me à conversa com o dono de uma cadeia de televisão norueguesa que veio aproveitar o passeio.
Toda a gente relaxa um pouco, pois está-se bem à volta do fogo.
Chega a hora de ir dormir, chuta-se neve para cima do fogo e cada equipa recolhe aos seus abrigos.
Faço a rotina do relento, com os bibs por baixo do saco-cama e a parka sobre as pernas, com os pés enfiados no capuz, mas começo a achar que é excessivo e ainda nem me deitei. Parece-me mais quente no abrigo que nas duas noites anteriores na tenda.
De barriga cheia e quentinho, tombo que nem uma pedra.

4º e último dia da corrida
a festa e o lago gelado

Toda a gente acorda bem-disposta depois de uma noite quentinha. Os abrigos, uns mais elaborados que outros, proporcionam um descanso mais quente que nas tendas, ainda que a -15ºC.

Há uma sensação estranha no ar, de ser o último dia.
No entanto, hoje regressa a rotina dos cães, que não deixa tempo para grandes meditações metafísicas.
Depois de um rápido pequeno almoço, há que os adestrar, que ontem dormiram a tarde toda e devem estar sedentos de corrida.

Ainda há tempo para um cafezinho antes de abalar, já com tudo arrumado e os abrigos desmontados.
Explico ao Johan como fazer o sorriso 32, e tiro uma foto que vai direitinha para o meu currículo de campo, pois não é todos os dias que nos cruzamos com gente deste gabarito.

Em menos de nada estamos de volta à placidez dos lagos, com os curtos intervalos pela mata.
Demasiado rápido para ser verdade, lá ao fundo já se avistam as bandeiras da linha de chegada.
Custa a acreditar que está a chegar ao fim.

Ainda não está tudo terminado. É preciso levar os cães ás carrinhas de transporte que os esperam do outro lado do campo e depois regressar a puxar o trenó, para sentir pela primeira vez o que os cães sentem. Não é assim tão mau, aquilo desliza muito bem.

Depois de tudo entregue, encontramo-nos todos na linha de chegada para a última foto de grupo.

Lá atrás, naquele tipi enorme, espera-nos o almoço. Mas ainda não. Johan diz-nos que temos que prestar provas do que aprendemos, e que para ganharmos o direito ao almoço, temos que acender um fogo. Tenho o bolso cheio de casca de bétula, por isso vou ao pinheiro mais próximo apanhar uns raminhos secos e faço um bocado de tempo enquanto toda a gente corre a ir procurar material.
“a aventura não acaba até estarmos em casa”, repete Johan.
Fogo aceso e apagado e lá nos dirigimos ao tipi, onde nos espera um salmão com natas.

Do lado de fora acenderam um fogo grande, e há peles de renas no chão para manter o traseiro quente enquanto acabamos o almoço.
Andreas, o patrão da Fjallraven, diz-nos o programa das festas e qual do material é que vamos poder levar para casa. Uma salva de palmas para todos e agora é agarrar no material e dirigir-mo-nos à casa grande para um merecido descanso.
Somos recebidos por um local que nos dá uma breve apresentação do campo. Aqui é a casa, jantar em baixo quartos em cima, ali são as sanitas, ali é a sauna, e espetadas na neve à porta de cada uma delas estão montes de cervejas. Sirvam-se que há lá mais dentro e nós vamos repondo.
Enquanto fazemos turnos para o WC, ficamos na conversa no alpendre. pomo-nos um pouco mais à vontade e vamos virando uma cerveja.
Sabe tão bem que até deixamos as moças usarem primeiro a sauna.
Para descanso dos nossos leitores não há fotos da sauna. Mas é o costume: 50 a 80ºC  lá dentro e um vapor que queima, bancos corridos, toalhas e agua gelada pela cabeça abaixo, parece a praia em Sesimbra no verão. Depois de todos lavadinhos a balde e cheios de calor, vamos então ao lago.

São uns 150 metros pela neve e depois pelo gelo até ao buraco no centro do lago. Quando lá chego já não sinto os pés. Curiosamente não me custa nada entrar, pois não há choque térmico. É descer as escadas e mergulhar a cabeça. Mas quando saio farto-me de gritar, perante os aplausos dos locais do outro lado do lago que gozam o prato. Depois o corpo começa a libertar um calor enorme e regresso quente à sauna, não fora os pés continuarem tão gelados que já não os sinto desde que saí da sauna.

Limpos e vestidos reunimo-nos para um jantar conjunto e uma pequena festa na casa-bar.

No dia seguinte arrumamos o equipamento, recebemos os diplomas, e entre choros e abraços, despedimo-nos à medida que cada um vai ficando para trás nos aeroportos que os vão levar de volta a casa.
Ainda me esperavam 8 horas de viagem de regresso, mas as recordações ficam para sempre.

 

A regra dos 3

Recuemos pouco mais de um século.
Até uma altura em que Lord Baden-Powell (BP) sente aquela necessidade de fazer algo pelos jovens ingleses, que começavam a parecer perdidos e sem destino, altura em que inventa o escutismo.
Estamos a falar de uma pessoa que há-de ter vivido grande parte da sua vida no mato, por necessidade profissional, e que aprendeu a viver nele, acabando por se sentir tão em casa debaixo de uns pinheiros como  no conforto do sofá da sala.

Ora BP sabe que o seu método funciona, que é eficaz enquanto método educativo, porque permite ao jovem ensaiar modelos de sociedade ao mesmo tempo que é senhor de criar as suas próprias aventuras.
Mas porquê arrastar os jovens de um meio que lhes é familiar e confortável para um meio inóspito, perigoso, desconfortável e muitas vezes longe de casa, obrigando a viagens caras e longas?

Porque conhecia a rotina de campo, e sabia que não é possível viver na natureza sem um esforço contínuo, sem uma aprendizagem constante, e sem um trabalho de equipa, em que cada um cumpre a sua função para o bem comum, e que esta última rotina tem resultados imediatos.
Se há um que falha em recolher lenha, ninguém almoça, se há um que tarda em buscar água, todos passam sede, não é possível o ócio num acampamento de escuteiros, pela própria natureza da actividade.

A vida em campo torna-se assim não só um meio em que está mais desperto o imaginário da aventura, mas em que o trabalho de equipa, e o esforço individual nesse sentido, não é apenas uma opção, mas uma necessidade imperativa cujas consequências são graves e imediatas.
Desde a ginástica matinal ao acordar, para evitar as lesões do esforço que começa cedo, apanhar, separar e rachar lenha para o dia, fazer fogo para o pequeno-almoço, lavar loiça, roupa, arejar e arrumar o campo, tratar da higiene, encontrar, preparar e confeccionar o almoço e o jantar, e pelo meio fazer todos os instrumentos e comodidades para a vida em campo, todas estas pequenas tarefas se tornam de uma importância tremenda.
O simples acto de viver em campo é dos melhores meios de desenvolver o carácter de um jovem.

Voltemos aos dias de hoje.
A rotina de campo mudou muito.
Os mesmos do costume tiram o material do carro dos pais e montam rapidamente a tenda de 3 segundos em qualquer lado para irem a correr fazer um dos jogos que o chefe levou a semana anterior a preparar.
Depois os mesmos de sempre ligam o gás e num instante confeccionam qualquer coisa que o pai comprou no supermercado na véspera, de preferência uma das receitas do costume, para que no fim aos outros toque o “castigo” de ir lavar a loiça com o habitual ar contrariado de quem está a fazer um frete.
E rápido, que depois de almoço temos outro jogo, para evitar que o ócio os leve a actividades menos adequadas.  O fogo de conselho foi substituído pela festa de campo, onde em vez de experiências e conselhos se trocam anedotas, peças cómicas e umas carícias com a namorada, até chegar a hora de ir mandar SMS’s para os amigos no chão frio e duro da tenda para os amigos virtuais.

E, pergunto-me, para que é que o chefe andou a queimar tanta pestana a preparar jogos noites de semana dentro, em intermináveis reuniões de equipa, quando o campo teria feito todo o trabalho educativo por ele, se apenas os deixasse acampar em vez de fazer campismo?

A vida em campo é a essência do escutismo, e urge que o chefe escuteiro volte a dominar a arte do mato, para que o possa ensinar aos seus escuteiros.
Não existe escutismo se ao moço não é dada a oportunidade de sofrer e aprender com isso, de passar pelas amarguras de uma noite fria com os companheiros como única fonte de calor, de falhar e aprender a assumir a responsabilidade pelos seus erros perante os pares.
Mais que fazer campismo, o escuteiro precisa de acampar.

Fica a reflexão.
Vêmo-nos no mato.

O frio está a chegar, e com ele os riscos associados a actividades de exterior.
A hipotermia é a principal causa de morte entre praticantes de actividades radicais, e o principal factor de desconforto ou necessidade de tratamento hospitalar para os aventureiros ocasionais.

Por isso é importante que conheçamos os mecanismos de perda de calor, para que saibamos como agir, e os métodos adequados de nos equiparmos para o frio, para que os possamos adaptar às nossas condições imediatas. Estes conhecimentos e técnicas podem fazer a diferença entre o conforto e uma estada miserável em campo, ou mesmo entre a vida e a morte.

Principios fundamentais

O nosso corpo precisa de manter uma temperatura média de 37ºC. Se a temperatura ambiente estiver entre os 28 e 31ºC, até podemos estar nús e inertes, que o nosso corpo consegue regular e manter a sua temperatura interior.
Abaixo dos 28ºC o nosso corpo perde calor para o ambiente, a não ser que estejamos devidamente equipados.
Uma vez que o nosso corpo produz calor pela queima de energia proveniente da comida que ingerimos, a exposição ao frio pode significar que passamos fome, pois necessitamos de mais comida do que o habitual, ou a exaustão física, pois o corpo vai estar a desenvolver um esforço enorme para produzir calor.

Vejamos então os mecanismos pelos quais perdemos calor.

1-Radiação.
A radiação é energia emitida naturalmente por um corpo. É o que nos faz sentir quentes junto do fogo ou em exposição solar. É por isso que aparecemos a vermelho nos sensores de infravermelhos.
O nosso corpo emite constantemente radiação e não há muito que possamos fazer acerca disso.
Mas o facto de usarmos roupa não impede a perda de calor por radiação, pois passamos esse calor para a roupa que por sua vez o passa para o ambiente. E curiosamente quanto mais frio está, mais o nosso corpo emite radiação.
Apesar de não podermos fazer nada acerca disso é importante estarmos conscientes das consequências da exposição ao frio.

2-Condução.
A condução é uma troca de energia entre dois corpos em contacto, que vão tender para a estabilização, harmonizando a temperatura entre eles. A velocidade a que o calor é transmitido depende da conductividade do meio, e é por isso que perdemos mais calor para a água, que é uma excelente condutora, do que para o ar.
Se bem que conseguimos rápidamente aquecer uma pedra na nossa mão até à temperatura exterior do nosso corpo, não conseguiriamos aquecer uma pedra de uma tonelada por mais que nos abraçássemos a ela sem roupa, por causa da superfície de dissipação que esta tem.
Em actividade, os locais mais frequentes de perda de calor por condução são as solas dos pés e o traseiro quando nos sentamos.
Colocarmo-nos em cima de alguns ramos quando vamos parar, em vez de directamente no solo, faz uma diferença enorme para o conforto dos pés.

3-Convecção.
Este é provavelmente o factor a ter mais em conta.
O ar quente é mais leve que o ar frio. O ar quente sobe e o ar frio desce.
E a convecção acontece quando há contacto com um fluido ou gás em movimento. O ar junto da nossa pele vai ser aquecido pelo calor do corpo, vai subir, criando um diferencial de pressão, puxando ar frio, que nos obriga a repetir o processo de aquecer o ar à superfície da pele. Criar camadas de ar junto ao corpo presas pela roupa em camadas é o que nos vai permitir mantermo-nos quentes. É o ar que nos mantém quentes, e não as roupas.

As zonas onde se dá a maior perda de calor são a cabeça e o pescoço. Quando experimentamos uma perda significativa por estes sítios, o corpo começa a cortar aquecimento às extremidades, pés e mãos, para gastar essa energia nas partes mais importantes do corpo, o torso e a cabeça. Portanto uma boa protecção do torso, pescoço e cabeça é o primeiro passo para manter os pés e as mãos quentes.

O vento frio também proporciona uma enorme perda de calor por convecção, pelo que ter uma camada exterior que bloqueie o vento é essencial no mecanismo de manutenção de temperatura.

Mas enquanto o ar é um bom isolante, a água é um bom condutor, e nada nos retira mais calor do corpo que ter a pele húmida, como quando suamos. Por isso é importante que a regulação termica seja apenas a suficiente para nos permitir estar confortavelmente frescos.

4-Evaporação
A evaporação é um processo natural de arrefecimento do corpo. Quando a agua evapora dá-se uma reacção endotermica, e o calor é absorvido, provocando uma sensação de frio. É o mesmo principio dos frigoríficos e das melancias.
Portanto, de cada vez que suamos, ou que a humidade da nossa roupa evapora, perdemos calor. E a água conduz o calor para fora do nosso corpo 25 vezes mais depressa que o ar.
Por isso é da maior importância que nos conservemos secos quando estamos no mato.
A primeira linha de defesa contra a hipotermia é a roupa, que impede a água de molhar as nossas roupas. Mas a mesma roupa que afasta a água, se estivermos a fazer exercicio, pode impedir a evaporação do suor.
Por tanto se tivermos em conta a temperatura ambiente e o nosso nível de esforço podemos contribuir para a manutenção de uma temperatura corporal estável se:

-Ajustarmos as nossas camadas de roupa, de modo a não estarmos nem sub nem sobreaquecidos
-fizermos uma boa ventilação, permitindo a saída de humidade e controlando a entrada de ar frio
-regularmos a nossa actividade, evitando situações em que o ajuste e a ventilação não sejam suficientes

5-Respiração
Sim, perdemos calor a respirar. Não há muito que possamos fazer para o impedir.
O ar que entra nos nossos pulmões tem que ser aquecido, e isso é feito através de vapor de água. Ao expelirmos, deitamos fora esse vapor aquecido, e vamos voltar a repetir o processo com a próxima inalação. É por isso que em tempo frio, a desidratação é um perigo real, pois estamos a gastar mais agua do que o habitual para aquecer o ar que respiramos, e enquanto é fácil mantermo-nos hidratados em tempo quente porque temos sede, em tempo frio temos que fazer um esforço consciente para beber água. Além disso, quanto mais frio é o ar mais seco ele é, agravando ainda mais a situação.

Agora que já conhecemos os mecanismos de perda de calor, podemos aplicar o aprendido no modo como nos equipamos para o frio.
Devemos vestir-nos por camadas, de modo a capturar a maior quantidade possível de ar entre a nossa pele e o exterior, tomando especial atenção a proteger o torso, cabeça e pescoço.
Apesar da camada exterior dever ser impermeável, para impedir que as roupas fiquem molhadas e percam a sua capacidade isolante, deve ser tido em conta a necessidade de ventilação, não só para permitir a libertação do suor como para impedir a entrada de ar frio junto aos pulsos e tornozelos.
As camadas devem ser vestidas e despidas de acordo com o tipo de exercicio físico que estamos a fazer.
Evitar a todo o custo o algodão. Este perde muito rápidamente a capacidade isolante quando húmido, pela quebra das fibras, e demora a secar. Optar antes pela lã, que retém 80% do calor mesmo molhada, ou em alternativa pelas fibras sintéticas.
A roupa deve ser usada solta, não só para prender mais ar junto ao corpo mas também para evitar o corte de circulação sanguínea que pode impedir o aquecimento das extremidades.
E principalmente devemos manter-nos secos.

Vêmo-nos no mato.

James Morton Turner é um professor assistente no programa de estudos ambientais da universidade de Wellesley.
Neste seu ensaio, que cobre a história do movimento pela natureza na América, ele aborda a passagem de uma visão do meio natural em que o Homem devia ser interventivo, pois é o meio por excelência para o desenvolvimento físico e de carácter, para uma visão contemporânea economicista da natureza, como mais um produto a ser vendido e consumido.
Com passagem por uma série de figuras da história das actividades ao ar livre, a leitura é interessante e divertida.
No entanto é um trabalho com uma enorme carga reflexiva, no que diz respeito ao modo como abordamos a natureza.
Uma leitura aconselhada, que podem obter aqui:

http://www.wellesley.edu/EnvironmentalStudies/Faculty/Jay/Docs/Research%20Section/Turner-LNT-Env-History-2002.pdf