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A regra dos 3

Recuemos pouco mais de um século.
Até uma altura em que Lord Baden-Powell (BP) sente aquela necessidade de fazer algo pelos jovens ingleses, que começavam a parecer perdidos e sem destino, altura em que inventa o escutismo.
Estamos a falar de uma pessoa que há-de ter vivido grande parte da sua vida no mato, por necessidade profissional, e que aprendeu a viver nele, acabando por se sentir tão em casa debaixo de uns pinheiros como  no conforto do sofá da sala.

Ora BP sabe que o seu método funciona, que é eficaz enquanto método educativo, porque permite ao jovem ensaiar modelos de sociedade ao mesmo tempo que é senhor de criar as suas próprias aventuras.
Mas porquê arrastar os jovens de um meio que lhes é familiar e confortável para um meio inóspito, perigoso, desconfortável e muitas vezes longe de casa, obrigando a viagens caras e longas?

Porque conhecia a rotina de campo, e sabia que não é possível viver na natureza sem um esforço contínuo, sem uma aprendizagem constante, e sem um trabalho de equipa, em que cada um cumpre a sua função para o bem comum, e que esta última rotina tem resultados imediatos.
Se há um que falha em recolher lenha, ninguém almoça, se há um que tarda em buscar água, todos passam sede, não é possível o ócio num acampamento de escuteiros, pela própria natureza da actividade.

A vida em campo torna-se assim não só um meio em que está mais desperto o imaginário da aventura, mas em que o trabalho de equipa, e o esforço individual nesse sentido, não é apenas uma opção, mas uma necessidade imperativa cujas consequências são graves e imediatas.
Desde a ginástica matinal ao acordar, para evitar as lesões do esforço que começa cedo, apanhar, separar e rachar lenha para o dia, fazer fogo para o pequeno-almoço, lavar loiça, roupa, arejar e arrumar o campo, tratar da higiene, encontrar, preparar e confeccionar o almoço e o jantar, e pelo meio fazer todos os instrumentos e comodidades para a vida em campo, todas estas pequenas tarefas se tornam de uma importância tremenda.
O simples acto de viver em campo é dos melhores meios de desenvolver o carácter de um jovem.

Voltemos aos dias de hoje.
A rotina de campo mudou muito.
Os mesmos do costume tiram o material do carro dos pais e montam rapidamente a tenda de 3 segundos em qualquer lado para irem a correr fazer um dos jogos que o chefe levou a semana anterior a preparar.
Depois os mesmos de sempre ligam o gás e num instante confeccionam qualquer coisa que o pai comprou no supermercado na véspera, de preferência uma das receitas do costume, para que no fim aos outros toque o “castigo” de ir lavar a loiça com o habitual ar contrariado de quem está a fazer um frete.
E rápido, que depois de almoço temos outro jogo, para evitar que o ócio os leve a actividades menos adequadas.  O fogo de conselho foi substituído pela festa de campo, onde em vez de experiências e conselhos se trocam anedotas, peças cómicas e umas carícias com a namorada, até chegar a hora de ir mandar SMS’s para os amigos no chão frio e duro da tenda para os amigos virtuais.

E, pergunto-me, para que é que o chefe andou a queimar tanta pestana a preparar jogos noites de semana dentro, em intermináveis reuniões de equipa, quando o campo teria feito todo o trabalho educativo por ele, se apenas os deixasse acampar em vez de fazer campismo?

A vida em campo é a essência do escutismo, e urge que o chefe escuteiro volte a dominar a arte do mato, para que o possa ensinar aos seus escuteiros.
Não existe escutismo se ao moço não é dada a oportunidade de sofrer e aprender com isso, de passar pelas amarguras de uma noite fria com os companheiros como única fonte de calor, de falhar e aprender a assumir a responsabilidade pelos seus erros perante os pares.
Mais que fazer campismo, o escuteiro precisa de acampar.

Fica a reflexão.
Vêmo-nos no mato.

O frio está a chegar, e com ele os riscos associados a actividades de exterior.
A hipotermia é a principal causa de morte entre praticantes de actividades radicais, e o principal factor de desconforto ou necessidade de tratamento hospitalar para os aventureiros ocasionais.

Por isso é importante que conheçamos os mecanismos de perda de calor, para que saibamos como agir, e os métodos adequados de nos equiparmos para o frio, para que os possamos adaptar às nossas condições imediatas. Estes conhecimentos e técnicas podem fazer a diferença entre o conforto e uma estada miserável em campo, ou mesmo entre a vida e a morte.

Principios fundamentais

O nosso corpo precisa de manter uma temperatura média de 37ºC. Se a temperatura ambiente estiver entre os 28 e 31ºC, até podemos estar nús e inertes, que o nosso corpo consegue regular e manter a sua temperatura interior.
Abaixo dos 28ºC o nosso corpo perde calor para o ambiente, a não ser que estejamos devidamente equipados.
Uma vez que o nosso corpo produz calor pela queima de energia proveniente da comida que ingerimos, a exposição ao frio pode significar que passamos fome, pois necessitamos de mais comida do que o habitual, ou a exaustão física, pois o corpo vai estar a desenvolver um esforço enorme para produzir calor.

Vejamos então os mecanismos pelos quais perdemos calor.

1-Radiação.
A radiação é energia emitida naturalmente por um corpo. É o que nos faz sentir quentes junto do fogo ou em exposição solar. É por isso que aparecemos a vermelho nos sensores de infravermelhos.
O nosso corpo emite constantemente radiação e não há muito que possamos fazer acerca disso.
Mas o facto de usarmos roupa não impede a perda de calor por radiação, pois passamos esse calor para a roupa que por sua vez o passa para o ambiente. E curiosamente quanto mais frio está, mais o nosso corpo emite radiação.
Apesar de não podermos fazer nada acerca disso é importante estarmos conscientes das consequências da exposição ao frio.

2-Condução.
A condução é uma troca de energia entre dois corpos em contacto, que vão tender para a estabilização, harmonizando a temperatura entre eles. A velocidade a que o calor é transmitido depende da conductividade do meio, e é por isso que perdemos mais calor para a água, que é uma excelente condutora, do que para o ar.
Se bem que conseguimos rápidamente aquecer uma pedra na nossa mão até à temperatura exterior do nosso corpo, não conseguiriamos aquecer uma pedra de uma tonelada por mais que nos abraçássemos a ela sem roupa, por causa da superfície de dissipação que esta tem.
Em actividade, os locais mais frequentes de perda de calor por condução são as solas dos pés e o traseiro quando nos sentamos.
Colocarmo-nos em cima de alguns ramos quando vamos parar, em vez de directamente no solo, faz uma diferença enorme para o conforto dos pés.

3-Convecção.
Este é provavelmente o factor a ter mais em conta.
O ar quente é mais leve que o ar frio. O ar quente sobe e o ar frio desce.
E a convecção acontece quando há contacto com um fluido ou gás em movimento. O ar junto da nossa pele vai ser aquecido pelo calor do corpo, vai subir, criando um diferencial de pressão, puxando ar frio, que nos obriga a repetir o processo de aquecer o ar à superfície da pele. Criar camadas de ar junto ao corpo presas pela roupa em camadas é o que nos vai permitir mantermo-nos quentes. É o ar que nos mantém quentes, e não as roupas.

As zonas onde se dá a maior perda de calor são a cabeça e o pescoço. Quando experimentamos uma perda significativa por estes sítios, o corpo começa a cortar aquecimento às extremidades, pés e mãos, para gastar essa energia nas partes mais importantes do corpo, o torso e a cabeça. Portanto uma boa protecção do torso, pescoço e cabeça é o primeiro passo para manter os pés e as mãos quentes.

O vento frio também proporciona uma enorme perda de calor por convecção, pelo que ter uma camada exterior que bloqueie o vento é essencial no mecanismo de manutenção de temperatura.

Mas enquanto o ar é um bom isolante, a água é um bom condutor, e nada nos retira mais calor do corpo que ter a pele húmida, como quando suamos. Por isso é importante que a regulação termica seja apenas a suficiente para nos permitir estar confortavelmente frescos.

4-Evaporação
A evaporação é um processo natural de arrefecimento do corpo. Quando a agua evapora dá-se uma reacção endotermica, e o calor é absorvido, provocando uma sensação de frio. É o mesmo principio dos frigoríficos e das melancias.
Portanto, de cada vez que suamos, ou que a humidade da nossa roupa evapora, perdemos calor. E a água conduz o calor para fora do nosso corpo 25 vezes mais depressa que o ar.
Por isso é da maior importância que nos conservemos secos quando estamos no mato.
A primeira linha de defesa contra a hipotermia é a roupa, que impede a água de molhar as nossas roupas. Mas a mesma roupa que afasta a água, se estivermos a fazer exercicio, pode impedir a evaporação do suor.
Por tanto se tivermos em conta a temperatura ambiente e o nosso nível de esforço podemos contribuir para a manutenção de uma temperatura corporal estável se:

-Ajustarmos as nossas camadas de roupa, de modo a não estarmos nem sub nem sobreaquecidos
-fizermos uma boa ventilação, permitindo a saída de humidade e controlando a entrada de ar frio
-regularmos a nossa actividade, evitando situações em que o ajuste e a ventilação não sejam suficientes

5-Respiração
Sim, perdemos calor a respirar. Não há muito que possamos fazer para o impedir.
O ar que entra nos nossos pulmões tem que ser aquecido, e isso é feito através de vapor de água. Ao expelirmos, deitamos fora esse vapor aquecido, e vamos voltar a repetir o processo com a próxima inalação. É por isso que em tempo frio, a desidratação é um perigo real, pois estamos a gastar mais agua do que o habitual para aquecer o ar que respiramos, e enquanto é fácil mantermo-nos hidratados em tempo quente porque temos sede, em tempo frio temos que fazer um esforço consciente para beber água. Além disso, quanto mais frio é o ar mais seco ele é, agravando ainda mais a situação.

Agora que já conhecemos os mecanismos de perda de calor, podemos aplicar o aprendido no modo como nos equipamos para o frio.
Devemos vestir-nos por camadas, de modo a capturar a maior quantidade possível de ar entre a nossa pele e o exterior, tomando especial atenção a proteger o torso, cabeça e pescoço.
Apesar da camada exterior dever ser impermeável, para impedir que as roupas fiquem molhadas e percam a sua capacidade isolante, deve ser tido em conta a necessidade de ventilação, não só para permitir a libertação do suor como para impedir a entrada de ar frio junto aos pulsos e tornozelos.
As camadas devem ser vestidas e despidas de acordo com o tipo de exercicio físico que estamos a fazer.
Evitar a todo o custo o algodão. Este perde muito rápidamente a capacidade isolante quando húmido, pela quebra das fibras, e demora a secar. Optar antes pela lã, que retém 80% do calor mesmo molhada, ou em alternativa pelas fibras sintéticas.
A roupa deve ser usada solta, não só para prender mais ar junto ao corpo mas também para evitar o corte de circulação sanguínea que pode impedir o aquecimento das extremidades.
E principalmente devemos manter-nos secos.

Vêmo-nos no mato.

James Morton Turner é um professor assistente no programa de estudos ambientais da universidade de Wellesley.
Neste seu ensaio, que cobre a história do movimento pela natureza na América, ele aborda a passagem de uma visão do meio natural em que o Homem devia ser interventivo, pois é o meio por excelência para o desenvolvimento físico e de carácter, para uma visão contemporânea economicista da natureza, como mais um produto a ser vendido e consumido.
Com passagem por uma série de figuras da história das actividades ao ar livre, a leitura é interessante e divertida.
No entanto é um trabalho com uma enorme carga reflexiva, no que diz respeito ao modo como abordamos a natureza.
Uma leitura aconselhada, que podem obter aqui:

http://www.wellesley.edu/EnvironmentalStudies/Faculty/Jay/Docs/Research%20Section/Turner-LNT-Env-History-2002.pdf

Actualizações

Estão online no site da Escola do Mato as datas e preços dos cursos.

Site

Já está online o site oficial da Escola do Mato, onde podem encontrar informações sobre os cursos a decorrer.
Podem encontrar-nos aqui.

Apresentação

A escola do mato, em parceria com a Associação Portuguesa de Bushcraft e Técnicas de Sobrevivência, pretende oferecer acções formativas em técnicas de campo, bushcraft e técnicas de sobrevivência.

A escola do mato prepara o seu primeiro curso para os dias 17 e 18 de Setembro de 2011.

O curso será ministrado por Pedro Alves (Toonman), e terá momentos de partilha por membros especializados da Associação Portuguesa de Bushcraft e Sobrevivência.
Novidades para breve.